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Rarefeito

Se eu respirar bem devagar inflando os pulmões como lençóis da caravela eu irei a nenhum lugar. Se eu inflamar o ar do peito enquanto a carne derrete embaixo dos cabelos talvez eu só me desfaça em cinzas. Se entre as costelas e vértebras se acomodarem nuvens e paisagens,  que eu inspire devagar...  Mas que a beleza que passa entre os olhos  revele também os meus erros.
Certamente ao expirar
somos todos soprados rarefeitos.

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Pelúcia

No apartamento de janelas enormes vivia o gato Lucrécio, o cão Balbino e João. João estava de frente à janela enquanto esperava o sono vir, observando as poucas pessoas passando à distância como fantasmas. Do lado de dentro as quinquilharias se acumulavam para dar coerência à vida de João. Pelo chão havia pêlo de animais, moedas, poeira, papéis amassados e símbolos de desistência. João andava pelo apartamento olhando pro lado de fora e percebendo que seu reflexo no vidro também parecia um fantasma. Terminando o último cigarro, decidiu que ia dormir. Saltou e chutou os entulhos no chão até encontrar a própria cama. Olhou em volta antes de dormir e percebeu os olhos brilhantes de Lucrécio escondidos no meio da bagunça e o rabo de Balbino sacudindo devagar. Com um assovio, os dois subiram na cama e deitaram com João, como sempre faziam. Balbino tomou o lado da cama que há muito tempo fora habitado por mulheres e Lucrécio deitou nas costas de João, que por sua vez dormiu de barriga pra bai…

Armadura

Eu estou vestido com as roupas e as armas de vento. Tô no caminho do meio,
de pé como as cinzas de um incenso
que já acabou.
Isso é equilíbrio? Eu estou com placas de metal e de espírito para que eu sangre menos,
deitado à beira da beirada do cu,
porque onde estou não combina com o drama de um precipício.
Eu tô num recomeço de esforço desfeito e auto-infligido
mas vestido com a armadura
porque eu já esperava pelo golpe certeiro.

João-de-Barro

João-de-Barro se orgulhou e depois da própria criação, olhou no espelho. No reflexo viu as paredes, os quadros ainda não pendurados,  os painéis de madeira e os tijolos. Embora fosse o João-de-Barro, era só um nome, pois nada daquilo foi ele quem criou. Não, na verdade pagou com salário recolhido como um Cuco que rouba de outros filhotes a mesada parcelada em jogos, lanches e drogas. Mesmo assim no reflexo João-de-Barro se orgulhou, pois tinha boa aparência Um reflexo marrom e azul-escuro de sabedoria, com alguns títulos que na ficção seriam chamados “Honrarias” porque foram todos conseguidos com alguma medida de fraude. Nada criminoso. Apenas preguiçoso. E a beleza? Caída, flácida, inchada, com cicatrizes.  Freqüentemente fedorento. Mas claro que João era um bom operário  suas ferramentas e seu barro eram abstratos... Palavras, a serem moldadas  ou separadas em fragmentos.
João era um mentiroso.

Fingindo Melancolia

Acostuma-te com a cova e a merda que te esperam,
são suas!  Velhas amigas estarão reunidas em seu funeral e seus nomes são bem conhecidos: Ingratidão, com a boca enrugada e amarga Solidão, escondida em um rosto vago e a dona do show, Rejeição. Por mais que tragas flores são só para a Ironia,  a mais familiar das velhas amigas. No lugar do túmulo joga um escarro Porque, claro O fim é miserável, como a criança abusada  que foi a vida.

Pé na Estrada

Nem a verdade pode agarrar certas certezas. ou a estrada percorrer toda a viagem. A margem não delimita todo o rio,  nem nascente,  poente,  e paisagem. Nem sempre é gente quem viaja E nem o que queima é sempre quente. Nem sempre as passadas têm um destino. Às vezes é só o gasto solado do sapato arrastando o tempo enquanto vai indo

Mantra II

A minha magia é a volta das mãos que brilham como as palavras de um santo cristão  que desceu ao corpo do meu avô de criação. Meu poder é a palavra  desde que seja controlada pelas margens reais  ou pelas que cabem nos pulmões. Minha espada se chama Perdão, e quando minha voz for de um leão enjaulado  que eu me lembre: as barras são feitas de indecisão. Eu corto com Perdão as quatro direções e entôo o mantra.
Minha magia é a aceitação.